Entrevista com Diretor da Shelter na Portos e Navios

ALTERNATIVAS PARA SALVATAGEM

Segmento sente impacto da crise nas vendas. Alta do dólar favorece exportação de alguns produtos

Alternativa para CabotagemOs fornecedores de equipamentos de salvatagem cobram maior fiscalização na substituição dos itens de segurança das embarcações. Com queda nas vendas de equipamentos, cursos e serviços, o segmento sentiu o aumento da competição. Mais cautelosas, as empresas adiaram alguns planos, mas estão de olho nas oportunidades para exportar produtos para alguns países, aproveitando a alta do dólar. Internamente, elas pretendem intensificar o trabalho para a conscientização da comunidade marítima sobre a importância da salvatagem.

O gerente da Viking Life-Saving Equipment no Brasil, Fernando Egidio, avalia que o mercado segue atrativo para empresas com boa performance, produtos de qualidade e preços justos. A empresa aposta em contratos de longa duração com seus clientes operadores e armadores, com foco em segurança para entender o mercado e suas necessidades. Para a Viking, 2016 será um ano de muita competição por mercado e foco no atendimento ao cliente e suas necessidades.

A empresa identifica o desafio de continuar ganhando espaço em um mercado onde o principal gerador de demanda direta e indireta para serviços, a Petrobras, está reduzindo sua frota de barcos e plataformas. “Hoje as oportunidades são grandes. Em cenários de crise, produtos com maior qualidade e durabilidade dentro de uma estratégia de preço justo têm abertura para se firmar em comparação aos concorrentes”, analisa.

A Norte Comércio e Locações percebe que a redução no transporte fluvial e demais atividades deixaram em segundo plano a necessidade de aquisição de equipamentos de salvatagem. A empresa trabalha junto a empresas de salvatagem fornecendo material para contenção de óleo e acidentes ambientais aquaviários. “A crise econômica afetou todos os segmentos de venda, e não seria diferente no mercado de salvatagem”, analisa o diretor da empresa, Rafael Passos. Segundo ele, as vendas caíram consideravelmente a partir de janeiro de 2015, tendo se intensificado nos últimos oito meses.

Ele ressalta que, como esses equipamentos são importantes para as atividades marítimas, ainda há procura. Para Passos, o desafio tem sido atender os clientes de forma mais flexível, facilitando a compra e a entrega dos equipamentos. Por isso, a Norte aposta nas formas de pagamento e na entrega do material diretamente na embarcação, se houver necessidade. “O cliente faz o pedido e fazemos a entrega na embarcação dele”, explica Passos.

Com a oscilação do câmbio e a alta tributação dos produtos, a Norte tenta repassar da forma mais reduzida possível qualquer tipo de aumento nos preços para seus clientes. “Oferecemos produtos com mais descontos e facilidades de pagamento, hoje as maiores oportunidades para nós estão na área do transporte de grãos, em atendimento a empurradores”, destaca Passos.

Na área de coletes salva-vidas, a Ativa Náutica continua sendo a única empresa brasileira fornecedora de coletes da classe I, utilizados na área offshore. No entanto, avalia que o mercado profissional está completamente abalado com a situação da Petrobras. A diretora comercial da Ativa, Marta Lara, explica que, com grandes obras canceladas ou paralisadas, houve uma retração significativa na procura por coletes classe I e IV. Com isso, depois de um crescimento de 16% em janeiro de 2015 em relação a 2014, a Ativa registrou nos meses seguintes quedas de 13%, 5% e 30%, respectivamente.

Ela destaca que toda a equipe da empresa está empenhada em repetir o resultado de 2014 — atualmente estão a 5% dessa meta. “Este sinal de alerta modificou nossa maneira de pensar. Chegamos à conclusão que voltaríamos ao tamanho que éramos em 2010. Enxugamos o quadro de funcionários, restringimos todos os gastos, sem alterar a qualidade de vida. Chamamos todos os envolvidos para explicar a situação de emergência. Interessante foi a reação de todos nos diversos níveis: “juntos passaremos a crise [econômica do país]”, revela Marta.

A gerente de marketing da empresa, Julia Ramalho, ressalta que os investimentos em desenvolvimento de produto e marketing não foram cortados, mas os projetos de longo prazo deram espaço para demandas imediatas de mercado, tais como coletes personalizados e para atividades de esporte e lazer. A empresa incorporou a sua linha de produtos coletes para standup paddle e caiaque, que cresceram nos últimos dois anos. Como resultado, já houve uma série de encomendas para o colete “Ativa Caiaque”, lançado em novembro.

Para o segmento profissional, a Ativa investiu em tecnologias de personalização. “Na era do on demand (sob demanda), empresas e lojas cada vez mais solicitam equipamentos personalizados. Sejam com seus logos, cores ou novos acessórios”, explica Julia.

Nos últimos anos, a empresa identificou crescimento significativo no mercado de lazer náutico. “As pessoas perceberam que não é tão caro ter um barco pequeno ou um jetski (moto náutica). As famílias hoje procuram diversões variadas e a tendência global pela busca do bem estar, de qualidade de vida, são fatores que favorecem o crescimento deste segmento, mesmo neste momento de crise”, conta Julia.

A Ativa possui uma equipe de desenvolvimento de produtos que está em busca constante por novas tecnologias e soluções. Há quatro anos, a empresa vem investindo no desenvolvimento e homologação de uma nova tecnologia de coletes voltada para o mercado profissional. De acordo com a Ativa, são produtos leves e pequenos que permitirão livre movimentação dos braços e dorso. O lançamento está previsto para julho de 2016.

A Indios Pirotecnia apura queda acima de 40% na média de negócios de 2015 em relação ao ano anterior. As maiores quedas foram sentidas nas vendas de produtos para marinha mercante e esporte recreio. O diretor da empresa, Pedro Miranda, atribui os resultados, em parte, à entrada de produtos chineses com custos muito baixos e sem homologação no mercado brasileiro.

Segundo ele, após um bom momento entre 2008 e 2011, as vendas começaram a cair e o cenário se agravou com a crise econômica vivida pelo país. Na área offshore, a empresa tem encontrado dificuldades para fornecer para a Petrobras há alguns anos. Já as vendas para embarcações militares permanecem estáveis.

Miranda reconhece a dificuldade de fiscalização, porém cobra mais atenção da Marinha no prazo de troca dos equipamentos de salvatagem das embarcações. Ele avalia que existe um descompasso entre o estabelecido nas regras e a prática de substituição dos equipamentos. “Que o produto tem validade e a troca do material nas embarcações não está no mesmo ritmo, é verdade”, afirma.

Ele diz ainda que o mercado não compra além dos três principais produtos de sinalização luminosa exigidos pela Solas (Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar, em português). A empresa vem promovendo ações para conscientização para alertar a comunidade marítima sobre a importância dos itens de segurança da navegação. Um dos pontos apresentados é o custo-benefício do produto, que tem validade de 40 meses e custa, em média, menos de R$ 0,40 por minuto dentro do barco. “Os índices de acidentes e imprudência aumentaram e as pessoas estão se preocupando pouco com questão da segurança”, alerta.

A Diretoria de Portos e Costas da Marinha (DPC) homologa os coletes salva-vidas classes I, II, III, IV e V, boias (classes I, II e III), balsas infláveis (classes I, II e III), botes de resgate, baleeiras totalmente fechadas à prova de fogo, dispositivos para lançamento (turcos) de botes de resgate e de baleeiras, artefatos pirotécnicos, dispositivo de iluminação automática para boias e ração para náufragos. Atualmente, a DPC possui homologados equipamentos de cerca de 20 empresas e está renovando certificados cuja validade expira até o final de 2015. Segundo a DPC, não foram homologadas novas empresas neste ano.

O diretor de Portos e Costas, vice-almirante Wilson Pereira de Lima Filho, explica que os testes dos equipamentos são rigorosos em relação ao cumprimento das normas de segurança nacionais e internacionais. Ele destaca os testes de resistência ao fogo nas baleeiras, os testes de tração, desviramento e resistência ao fogo em coletes e o desviramento e queda em botes de resgate. “O maior desafio nas atividades é a conscientização de que todos que se fazem ao mar tenham equipamentos de salvatagem adequados, em bom estado de conservação, prontos para serem utilizados e homologados pela Marinha do Brasil”, avalia.

A Marinha também ministra cursos na área de salvatagem nos seus centros de instrução e credencia instituições, por intermédio da DPC, para dar cursos para profissionais não tripulantes e tripulantes não aquaviários. Dentre eles, há alguns voltados especificamente para a área de salvatagem, como o “Curso de Embarcações de Sobrevivência” e o “Curso de Embarcações Rápidas de Regate”. No entanto, outros cursos como o “Curso Básico de Segurança de Plataforma”, o “Curso Básico de Segurança de Navio” e o “Curso Básico de Segurança para Embarcação Pesqueira” incluem aulas sobre salvatagem no seu currículo.


Entrevista com a Shelter:

A Shelter Cursos e Consultoria Marítima, uma das empresas credenciadas, sentiu impacto na procura por matrícula nos cursos de salvatagem já no início de 2015. O diretor da empresa, Omar Temer, conta que a média de 25 alunos por semana até 2014 caiu para média de 18 a 20 alunos a cada 15 dias. Os cursos são voltados para pessoas que procuram se adequar às normas e para empresas que precisam de treinamento.

Temer diz que a estratégia é olhar mais o mercado e entrar na diversificação de outros tipos de treinamento, em ferramentas como ECDIS (sistema de informação e visualização de cartas náuticas eletrônicas), GMDSS (Sistema Global de Socorro e Segurança Marítimo) e posicionamento dinâmico (DP). A empresa pretende apostar em salas com simuladores, mas a implantação desses equipamentos está sendo paulatina devido aos custos. Uma das aquisições recentes da Shelter foi um ECDIS para os alunos praticarem.

Ele identifica que existem muitas empresas endividadas no setor. Por conta disso, a Shelter registra cerca de 40% de empresas inadimplentes em 2015. “Estamos observando. Achamos que o mercado deve se estabilizar no começo de 2016 porque está em queda contínua”, analisa Temer.


A AWS Engenharia é uma certificadora autorizada pela autoridade marítima que começou no mercado atuando em toda parte que antecedia as certificações das embarcações. Por necessidade do mercado, a empresa decidiu se especializar na área de projetos para a área de salvatagem de forma preventiva. “Entendemos que, por ser um ato obrigatório, os armadores precisam manter as certificações dos equipamentos em dia e que as pessoas precisam cuidar melhor dos equipamentos para evitar a necessidade de salvatagem. Trabalhar na prevenção sempre será melhor do que atuar na salvatagem”, enfatiza o diretor técnico da AWS, Edinilson Moisés.

Moisés ressalta que, quando o acidente acontece, as ações precisam ser as mais ágeis possíveis. Ele explica que, se a tramitação de conseguir o equipamento localmente ou trazê-lo demora, o custo e o tempo da salvatagem ficam inviáveis. “Percebemos que, quando faltam equipamentos apropriados, a salvatagem se torna muito cara e, às vezes, fica refém dos procedimentos de importação para poder conseguir realizar a operação”, diz.

A AWS trabalha com pré-contratos com empresas que têm equipamentos como rebocadores, balsas e guindastes para acioná-las quando houver emergência. Para Moisés, o grande desafio para as empresas hoje é, com a queda do mercado naval, estarem devidamente aparelhadas com equipamentos prontos para atender com maior agilidade possível. “Existe cada vez mais dificuldade para aquisição dos equipamentos, mas nosso plano de negócios é sempre mapear quem vai locar determinados equipamentos padrão e ter a maior agilidade para indicação da contratação para equipamentos a serem utilizados para salvatagem”, explica.

O surgimento de novos produtos, em termos de tecnologia, foi afetado consideravelmente, devido à necessidade de investimento nessa área, que vem sofrendo com a falta de venda dos produtos já fabricados. Passos, da Norte Comércio e Locações, acrescenta que o processo de homologação dos equipamentos ainda é muito restrito devido à escassez de empresas autorizadas para tal finalidade.

Ele conta que as vendas tiveram uma queda significativa em 2015, considerando que a comercialização de produtos transportados por embarcações sofreram redução maior que em 2014. No médio prazo, a estratégia da empresa é esperar uma melhora na economia a fim de alavancar as vendas novamente. Segundo o diretor da Norte, os clientes procuram postergar ao máximo a aquisição de novos equipamentos a fim de esperar a melhora no quadro geral da comercialização.

A Indios vem participando de feiras no exterior para ampliar seus clientes no mercado externo, com apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Com a valorização do dólar, os produtos brasileiros ganharam competitividade lá fora. A empresa já vende para o exterior, principalmente na América do Sul.

O principal mercado da empresa é o Chile, mas ela está de olho em vender para a Argentina, Equador e Colômbia. Além disso, a empresa conseguiu cotações de clientes do Panamá e México. “Esse material possui norma técnica internacional e está com preço bom devido ao valor do dólar. Conseguimos participar de algumas concorrências no exterior e sermos bem sucedidos”, destaca.

Em 2015, a Viking lança no mercado um modelo híbrido de colete inflável com certificação Solas e da Guarda Costeira norte-americana, o primeiro de sua classe no mercado. A empresa está próxima de alcançar a certificação Solas para outro produto, chamado “lifecraft”, que substitui as tradicionais baleeiras a bordo dos navios de passageiros por equipamentos infláveis de alta capacidade. Cada unidade de evacuação possui capacidade para 800 pessoas.De acordo com a Viking, a solução trará mais espaço aos navios de passageiros, considerando que o “lifecraft” ocupa até um terço do espaço necessário para baleeiras em determinados modelos e navios.

Com estratégia de controle de custos e renegociação de volumes, a Viking vem conseguindo manter seus preços dentro de um patamar razoável para o cliente final. A empresa acredita que as atuais mudanças tributárias tenham pouco peso para o preço final ao consumidor. “Conseguimos aumentar nossa penetração de volume no mercado em 8%, comparado ao mesmo período de 2014, e esperamos manter o nível de crescimento para o próximo ano, mesmo com a perda de barcos e plataformas migrando do Brasil para outros países”, destaca Egidio.

A Viking também criou uma solução única de “drop in ball” para os antigos ‘gatos’ de içamentodas baleeiras. Hoje, a legislação pede a adequação dos antigos ‘gatos’ para modelos que comtemplem a legislação atual da Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês). Os armadores com sistemas de içamento antigo devem então efetuar a troca dos antigos gatos fora de conformidade com a atual legislação até 2019 ou a sua próxima docagem.

Em tempos de crise, existem armadores e operadores postergando algumas compras se os equipamentos ainda estiverem em condições de garantir uma sobrevida, conforme as recomendações do fabricante. Entretanto, os fornecedores reforçam a necessidade de manutenção do patamar de segurança de seus equipamentos. “O acidente tem um alto custo quando comparado a soluções mais baratas ou não certificadas. Consequentemente, não temos percebido migração para produtos mais baratos. A segurança em uma embarcação é imprescindível, portanto, não pode ser adiada”, enfatiza Egidio, da Viking.

A norma internacional que regula os requisitos técnicos de construção e testes em equipamentos de salvatagem é o Código Internacional de Equipamentos Salva-Vidas – Life-Saving Appliance (LSA) Code, da IMO. De acordo com a DPC, não existe nenhuma nova norma para entrar em vigor até 2016.

Escrito por Danilo Oliveira

FONTE: Portos e Navios

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